Ciência e Novas Tecnologias

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As questões atuais acerca da Vigilância e do Controle exercido através dela está relacionado às questões das novas tecnologias. Alguns, da mesma forma que os ludistas nos primórdios da industrialização na Inglaterra, acusam estas novas tecnologias como o elemento fundamental (inventado pelas classes dominantes) para o controle das massas.

As críticas às sempre complexas “novas tecnologias” não são atuais. O debate proposto por Walter Benjamin sobre a questão das cópias das obras de arte, no começo do Sec. XX, já dava um tom crítico às mídias que surgiam naquele momento, e que pareciam até prever o que viria mais tarde.

Não foi só Benjamim a tratar desse assunto.

Segundo o educador B.F. Skinner, o controle (sem as rédeas da sociedade democrática) gerado pelo uso de tecnologias da educação (e manipulação) não seria apenas intrigante, mas assustador. Assim ele afirma no livro Sobre o Behaviorismo:

Órgãos ou instituições organizados, tais como governos, religiões e sistemas econômicos e, em menor grau, educadores e psicoterapeutas, exercem um controle poderoso e muitas vezes molesto. Tal controle é exercido de maneira que reforça de forma muito eficaz aqueles que o exercem e, infelizmente, via de regra significa maneiras que são ou imediatamente adversativas para aqueles que sejam controlados ou os exploram a longo prazo.

Para ele, essas tecnologias (com seus primeiros passos dados em finais do século XIX) seriam utilizadas de uma maneira ou de outra, como o foram, por nazistas alemães e stalinistas soviéticos, para usufruto de grupos que estivessem no poder . O recomendável, nesse sentido seria estudá-las, aprimorá-las e utilizá-las com parcimônia.

É a ciência estabelecendo uma crítica a ela própria. E à tecnologia que a ronda.

Já em fins do Séc. XIX, o anarquista russo Mikhail Bakunin sugeria, no livro Deus e Estado, que a ciência, mesmo se definida como neutra e racional, estaria nas mãos de poucos e a serviço da manutenção da ignorância para a maioria da população.

Bakunin afirma em um dos seus textos reunidos no livro:

O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, desumano, cruel, opressivo, explorador, malfazejo.

Nesta mesma direção crítica surge o livro Vigiar e Punir, do filósofo Michel Foucault (mostrado em postagem anterior). Ali, Foucault vai mostrando, capítulo a capítulo, como vão se construindo no decorrer dos séculos as técnicas de disciplinamento e controle social.

O exercício da disciplina supõe um dispositivo que obrigue pelo jogo do olhar; um aparelho onde as técnicas que permitem ver induzam a efeitos de poder, e onde, em troca, os meios de coerção tornem claramente visíveis aqueles sobre quem se aplicam.

A procura de um instrumento perfeito para perceber todos os movimentos faz lembrar o Olho de Sauron*. Mitos a parte, é uma ferramenta destas que aqueles que se encontram no poder devem procurar.

A teletela orwelliana seria um desses aparelhos: O panóptico na forma eletrônica. Análogas a ela, em nossa sociedade, começo do Séc. XXI, poderiam ser, por exemplo, as câmeras escondidas nas esquinas das ruas, nas entradas de supermercados, nas garagens dos subsolos de grandes edifícios empresariais, ou nos elevadores de edifícios residenciais.

Domingo serão mostrados alguns exemplos de como a vigilância se torna atrativa como elemento que traz segurança a partir do fenômeno da violência dentro das cidades.

* O Olho de Sauron, que tudo vê e tudo sabe, faz parte da mitologia criada por J.R.R. Tolkien, na sua obra O Senhor dos Anéis.
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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo. Pós-Graduando em Jornalismo e Convergência Midiática, com pesquisa sobre o tema Vigilância e Controle Social
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Uma resposta para Ciência e Novas Tecnologias

  1. >quem se esconde por traz do "olho de sauron"?"A vida se torna resistência ao poder quando o poder toma por objeto a vida"gilles deleuzemelhor dizendo, quem se esconde por traz de tamanho poder de controle e manipulação? "ele" – o estado – que tudo vê e tudo sabe, pois é onipotente, onipresente e onisciente em toda sua plenitude…os vendilhões do templo (o capital) diria minha sábia vózinha, que sempre nos alertou com suas histórias de ninar sobre o lobo mal que se esconde nas florestas de concreto armado (o homem lobo do homem!) sempre pronto em nos arrancar o último par de calça (explorar), com suas quinquilharias multicoloridas que necessitam circular para a sua própria re-produção… sabemos que, desde tempos imemoriais, certas imagens (união, força, proteção etc.) estão marcadas em nossos mitos; deuses; discursos; instituições verticais; organizações centralizadas, burocráticas e autoritárias; e, também, no seu próprio antídoto (a razão!).sabemos, também, que só sobrevivemos devido a colaboração/ solidariedade entre os que são (e/ ou estão) subjugados pelo poder do capital associado ao estado.a resistência à estas forças anti-naturais (capital & estado) encontra-se na ação coletiva em defesa dos nossos interesses individuais e coletivos, mas resalte-se que amparados na ajuda mútua (solidariedade) dos que nos cercam (parentes, amigo(a)s, vizinho(a)s, companheiro(a)s, etc). que só se realiza/ se concretiza numa ação coletiva de compartilhamento, no exercício cotidiano que faz do "outro" não um inimigo em potencial, mas um potencial aliado nesta prazerosa experiência que é a vida.

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