As Câmeras e a Sociedade do Panóptico

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As câmeras de vigilância se tornam mais eficientes a cada dia que passa. Hoje são digitais e “inteligentes”, com capacidade cada vez maior de observação de detalhes. Capazes de perceber e alertar sobre modificações de fluxos de pessoas, como as hoje existentes nas estações de metro de Londres.

Ou como as câmeras nos aeroportos americanos, capazes de analisar, quando ligadas a possantes computadores, padrões faciais de indivíduos, traduzindo estas feições para identificação de possíveis riscos: terrorismo, assaltos, questões de saúde pública, etc. Verdadeiras peças “neo-lombrosianas” com jeito de ficção científica.

Assim, como nas teletelas orwellianas, as câmeras não teriam como meta a punição exemplar, mas a prevenção.

Boa parte da defesa destes processos de vigilância e controle se dá no sentido da sua inevitabilidade, sinalizada pelo resultado com relação à segurança pública, e pelo controle dos fluxos e interações dentro dos territórios de ocupação sociais.

No artigo “Poder, Vigilância e Ciberespaço“, Valéria Marcondes, faz um pequeno resumo sobre o pensamento de Foucault, no que diz respeito a questão dos dispositivos de controle sociais. No texto ela fala sobre o estabelecimento, a partir do Séc. XVIII, de uma tecnologia do poder, quando se iniciam estudos sistemáticos sobre disciplina e controle social. Escolas, prisões, hospitais, conventos, fábricas, são locais exemplares para se entender o que o filósofo chamava de Sociedade Disciplinar.

Segundo ela, Foucault veria as tecnologias de vigilância nascidas destas sociedades apenas por seu viés negativo. Os indivíduos estariam assim presos numa malha de poderes localizados por toda a sociedade. Assim, para Valéria Marcondes, Foucault via aquelas tecnologias apenas como “ferramentas do poder, utilizadas para suprimir a liberdade e impor limites aos cidadãos“.

Dentro desta linha de compreensão de que as tecnologias sempre serão usadas por governos e empresas para seu benefício a autora usa outro autor: William Bogard. Baseando-se no livro de Bogard, A Simulação da Vigilância: Hipercontrole em Sociedades Telemáticas, defini-o como “tecnofóbico“: “Onde a vigilância não pode capturar um evento, sua simulação pode, e oferece este poder para qualquer um“.

A frase acima no início do livro de Bogard nos faz, mais uma vez, lembrar do Panóptico… Uma simulação constante de vigilância. Não é difícil encontrar-se exemplos claros desta grande rede de vigilância. Um caso passível de análise é, por exemplo, a seção de futebol do programa dominical da Rede Globo, o Fantástico. Ali o jornalista brinca com os vídeos enviados pelos telespectadores para uma seleção de “Bolas Murchas” e “Bolas Cheias”.

Não é difícil se concluir que todos estamos sendo filmados por nossos próprios parentes ou amigos e podemos ser “exibidos” para todo mundo no domingo a noite, ou nas pequenas telas do YouTube.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo.
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8 respostas para As Câmeras e a Sociedade do Panóptico

  1. Anonymous disse:

    >oiacho que também estou na mesma turma do Bogart. sou tecnofóbica até a alma. quando vejo cameras e portas eletrônicas fico trêmula.bia

  2. Anonymous disse:

    >Paola Barreto Leblanc: “Os circuitos de vídeo-vigilância são uma presença cada vez mais comum e naturalizada nos espaços públicos e privados de grande circulação nas cidades.Sua implantação e disseminação baseiam-se em uma retórica de combate ao crime e à insegurança, que produz, a um só tempo, controle e normatização dos espaços vigiados.Este fenômeno, guardadas as devidas proporções, é global, e pode ser observado em diversos países ao redor do mundo. Com esta investigação, que propõe a apropriação artística do circuito de vídeo-vigilância, discutimos não apenas liberdades civis e direito à privacidade, questões sempre em jogo quando o tema da sociedade de controle se impõe, mas também e sobretudo como se dá a construção simbólica do espaço comum, do imaginário social e da função política da imagem, em um mundo cada vez mais midiatizado.”

  3. >no livro Vigiar & Punir – michel foucault (1988, p. 179) – encontramos algumas pérolas sobre a questão do instrumento apassivador da revolta/ rebeldia/ insubmissão/ resistência…instrumento este que é tão desejado por citadinos sitiados em seus espaços de clausura com grades, correntes e cadeados, e que amedrontados tremem com a possibilidade efetiva da violência bater à sua porta.violência que é assunto recorrente, banalizada pela insistente veiculação cotidiana e, portanto, retro-alimentada pelos próprios mass midea…estou falando de vigilância, da torre "central" nos panópticos espalhados por cada canto (escolas, hospitais, presídios, fábricas etc.), das câmaras que tudo vê e que nos condiciona a introjetar sensações ambíguas como o medo e a segurança pela presença constante do binômio vigiar e punir:“Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as ‘disciplinas’." (p. 118)"A primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de “quadros vivos” que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas." (p. 135)"… é visto, mas não vê; objeto de uma informação, nunca sujeito numa comunicação" (p. 166)"Quem está submetido a um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmo; inscreve em si a relação de poder na qual ele desempenha simultaneamente os dois papeis; torna-se o princípio de sua própria sujeição" ( p. 179)"O esquema panóptico é um intensificador para qualquer aparelho de poder: assegura sua economia (em material, em pessoal, em tempo); assegura sua eficácia por seu caráter preventivo, seu funcionamento contínuo e seus mecanismos automáticos" (p. 182)

  4. Anonymous disse:

    >PAOLA E JACK SÃO BEM ENGRAÇADOS. RETÓRICA APENAS. A SEGURANÇA NÃO NASCEU ANTES DA VIOLÊNCIA. AS CÂMERAS NASCEM E TÊM SUA FUNÇÃO SOCIAL, PELA NECESSIDADE DE SE IMPOR LIMITES AOS QUE NÃO GOSTAM DE REGRAS. AOS QUE QUEREM SE IMPOR PELA VIOLÊNCIA SOBRE OS FRACOS. AS CAMERAS SÃO OS OLHOS DA NOVA SOCIEDADE Q SE FORMA E Q VENCERÁ SOBRE OS ESTÚPIDOS.

  5. >ESTÚPIDOS!?!? agressões gratuitas à parte, faço minha uma célebre frase nas telas de cinema:"Ninguém devia temer seu governo. O governo é que deveria temer seu povo."de Alan Moore, in: V for Vendetta.p.s.:deixo no ar uma perguntinha socrática, em nome do quê (deus, pátria, patrão, progresso, segurança, sociedade etc.) devemos permitir que instituições coercitivas mantenham sobre vigilância permanente e continuada (24 horas/ dia) os indivíduos, isto para benefício de um pequeno grupo de inteligentes espertalhões…

  6. Anonymous disse:

    >VIVER DE IDEOLOGIAS, EM UM MUNDO IRREAL É O SUPRA-SUMO DAQUELES QUE FICAM CRITICANDO AS CAMERAS COMO INSTRUMENTO ORDEM.O PAU TÁ QUEBRANDO E AS CAMERAS DIMINUEM O ESTÍMULO CRIMINOSO DAQUELES QUE ESTÃO A FIM DE ME ROUBAR, VIOLENTAR, OU ATACAR.

  7. >santa ingenuidade, homem morcego!tamanha ingenuidade acreditar que o "olho mágico" irá manter em segurança a nossa querida e indefesa chapeuzinho vermelho.no século 19, na frança, maria antonieta indicava a distribuição de brioche para acalmar a turba…e a turba, agradecida, guilhotinou-lhe tão brilhante cabeçinha de abóbora!!!

  8. Anonymous disse:

    >OH, QUE BONITINHO, JACK ROBIN.O QUE SERIA DE SUA AMIGA CHAPEUZINHO SE NÃO FOSSE O OLHO MÁGICO DO GUARDA DA FLORESTA. SERIA COMIDA PELO LOBO.BOA LEMBRANÇA DA REVOLUÇÃO FRANCESA, JACK. SE NÃO FOSSE NAPOLEÃO E SUA DISCIPLINADORA IDEOLOGIA A "TURBA" ACABAVA COM A FRANÇA.AS CABECINHAS DE MELÃO CLAMAVAM POR LIBERDADE, MAS SÓ CONSEGUIAM MESMO ERA MAIS VIOLÊNCIA.

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