Vigilância sobre o Consumidor

O tema Consumismo é bem familiar a autores como Zygmunt Bauman (já apresentado aqui neste blog) e Gilles Lipovetsky (que será apresentado em breve).

É impossível se referir a tal tema sem citá-los.

Mas a Revista Surveillance & Society (online) fez um trabalho excelente ao combinar o tema consumismo ao da vigilância. A publicidade e o marketing não são, há muito tempo, coisa de criança. Essas duas “ciências” nasceram no interior do capitalismo. Da necessidade de fazer com que os indivíduos consumissem: Produtos ou ideias.

A Revista Surveillance & Society publicada semana passada tem a intenção de informar como esse fenômeno se processa atualmente. Com todo aparato tecnológico disponível para os marqueteiros e publicitários.

Trago aqui no post de hoje um trecho traduzido do Editorial da Revista: Marketing e o Crescimento da Vigilância sobre o Consumidor.

No próximo post (após férias bem merecidas de 15 dias) trarei mais trechos daquele editorial.

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Ao longo dos anos, análises de vigilância e teorias sobre prática de marketing abordaram a vigilância comercial e corporativa de consumidores em uma variedade de formas. Em um dos exemplares iniciais para detalhar a vigilância de consumidores, Oscar Gandy confiou no uso do Panóptico de Foucault para descrever práticas corporativas. O texto de Gandy, The Panotic Sort, articula-se em mecanismos que agem como “um tipo de triagem cibernética de alta tecnologia através da qual indivíduos e grupos de pessoas estão sendo classificados de acordo com seu presumido valor econômico ou político” (Gandy 1993, 1-2). Os dados dos consumidores são reunidos e analisados de maneiras que servem para ditar as ofertas corporativas para várias categorias e segmentações de clientela. Essa classificação panóptica explora dados comportamentais passados para estreitar e limitar seletivamente opções apresentadas para transações futuras, tudo isso baseado na identificação, classificação e avaliações de consumidores atuais e potenciais. Esse marketing racionalizado classifica alvos econômicos de alta qualidade e descarta outros na sua trilha discriminatória, existindo, argumenta Gandy, como um sistema de controle anti-democrático.

Essas considerações são depois expandidas em um trabalho posterior no qual ele indica que parte do problema é que a ilusão da escolha é mantida em um pano de fundo de uma faixa de opções que se estreita continuamente (1996). Gandy mostra como a relação entre compradores e vendedores tem se tornado uma transação impessoal controlada pela inteligência cibernética. Ela usa uma coleção de dados pessoais cada vez mais automatizada para presumidamente permitir uma forma de marketing personalizado (ibid.). Em um trabalho posterior de co-autoria com Anthony Danna, a perspectiva de Gandy é aplicada a um elemento chave na Gestão da Relação com o Consumidor, percebendo a exploração de dados como um processo de classificação social. Danna e Gandy (2002) sugerem que as conseqüências sociais de práticas de exploração de dados são consistentemente ignoradas e que essas práticas podem excluir classes de consumidores da total participação no mercado (ver também Zwick e Dholakia 2004a). Eles apelam para que as corporações examinem o custo potencial que essas técnicas discriminatórias terão sobre determinados grupos sociais e sugerem que as corporações precisam considerar mais do que os lucros ao realizarem o marketing com base em práticas de exploração de dados.
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Gandy, O. H. 1993. The Panoptic Sort: A Political Economy of Personal Information. Boulder, CO: Westview.
——. 1996. Coming to Terms with the Panoptic Sort. In D. Lyon and E. Zureik (eds) Computers, Surveillance, and Privacy. Minneapolis: University of Minnesota Press.
——. 2009. Coming to Terms with Chance: Engaging Rational Discrimination and Cumulative Disadvantage. Farnham, Surrey:Ashgate.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo.
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Uma resposta para Vigilância sobre o Consumidor

  1. Anonymous disse:

    >Pierre Lévy:“a imagem da técnica como potência má, inelutável e isolada revela-se não apenas falsa, mas catastrófica; ela desarma o cidadão frente ao novo príncipe que sabe muito bem que as redistribuições de poder são negociadas e disputadas em todos os terrenos e que nada é definitivo”.

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