Anos 90: A Hegemonia Neo-Liberal

Para entendermos o porquê de determinado discurso ter se tornado hegemônico em determinado período da história nada mais justo do que perceber o que se passa naquele momento.

Hoje aqui trago um pouco do que produzi durante minhas pesquisas sobre os discursos conflitantes no intervalo de tempo em que se deu a Greve dos Petroleiros de 1995. E como a ideia do Pensamento Único começava a se tornar cada dia mais concreta.

Faço hoje um pequeno resumo sobre os anos 90.

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Os anos 90 iniciaram um período da História da humanidade onde se caracteriza mais do que nunca a velocidade, a aceleração sem freios. Recebemos uma quantidade de informações tão grande neste momento que os acontecimentos vão passando e nem temos tempo de percebê-los na sua importância, e se esperarmos os anos necessários para que nossa “parcialidade” cesse, teremos mesmo “perdido” diversas informações sobre ele.

Os anos 90 foram realmente revolucionários. Bem mais que outros. As revoluções até agora pareciam se dar em décadas (econômicas), até séculos (mentais). As coisas agora mudam completamente em anos, e até meses. Algumas pesquisas que andam por ai em revistas científicas refutam hoje o que se acre­ditava verdadeiro a algumas edições atrás. Na grande ferramenta dos anos 90, a INTERNET, as “verdades” e as “inverdades” se disseminam e se misturam a um nível nunca visto. Rápida e globalmente.

Hoje já existe uma excelente bibliografia a respeito do que acontece no mundo e no Brasil quanto ao que se denomina Globalização, e a hegemonia do neoliberalismo nos anos 90. Apresentando um novo mundo construído com regras não tão novas.

Um mundo em que o termo globalização perde a positividade do internacionalismo e da fraternidade globais, em que se perde o sentido da integração mundial, da Aldeia Global(1), e anunciando um anti-humanismo explícito.

Que globalização é esta, que empurra a humanidade a um único projeto político-social-econômico ? Antes seria conveniente se conceituar esse projeto, justamente, quando ele começa a se tornar hegemônico.

Em 1989 um muro é destruído e parece mudar completamente o rumo da história do mundo. Devido a uma série de circunstâncias, o muro de Berlim é derrubado e se torna símbolo de uma nova era para o ser humano (tanto para aqueles que defendem o capitalismo, quanto para os que resistem a ele), mas particularmente para boa parte da população de Berlim, separada do resto do mundo por um muro de centenas de quilômetros. Parte de um dos mundos mais totalitários(2) já construídos estava prestes a cair.

Após as Glasnost e Perestroika (Abertura e Transparência) de Gorbatchev o sonho comunista que havia se transformado em pesadelo, parecia ruir. Os países da “Cortina de Ferro” transformavam suas economias e políticas, um a um. Aproximavam-se do antigo inimigo, o capitalismo ocidental, se desgarrando da outrora poderosa União Soviética.

Três anos depois destroçava-se de uma vez por todas o grande Império Soviético, e junto com ele boa parte da oposição ao capitalismo. Quase paralisadas as esquerdas ao redor do mundo entram em crise. Partidos Comunistas mudam de nome tentando encontrar uma saída honrosa naquele momento de desespero.

Lendo jornais e revistas poderia parecer estar cessando a luta entre Leste e Oeste. Um possível mundo sem história foi diagnosticado. Naquele mundo as reformas, baseadas no Plano Baker de 1985, ou no Consenso de Washington, orientadas para o mercado livre, deveriam liberalizar o comércio, privatizar as empresas estatais e desregular as legislações nacionais que seguissem contrárias às necessidades do capital internacional(3), sintonizadas com as propostas de organismos internacionais como BIRD e FMI. Além disso, teorizava-se, surgiria um mundo sem conflitos e onde um Mercado-Rei se auto-regularia, e a ONU ou o G-7, quem sabe, centralizariam um governo internacional, tendendo-se a uma crescente cidadania mundial.

Mas, na realidade, o mundo se reduzia a apenas um caminho geral. O controle de corporações transnacionais sobre a economia, a política e a cultura de um país se torna tão eficaz que as eleições não mais conseguem modificar os rumos de um país. Esquerda e direita não aparentam estar tão distantes quando chegam ao poder pelo voto. O poder corre em direção a esfera privada em detrimento da esfera pública. Os casos da França e Inglaterra são exemplares já a partir da década de 80.(4)

Jacques Decornoy citando o relatório da OIT, O Emprego no Mundo – 1995, pode confirmar algumas das mudanças ocorridas, pois:

a globalização reduziu a autonomia econômica dos Estados, a mobilidade dos capitais impôs sua influência sobre as taxas de juros e de câmbio, a flexibilidade das empresas multinacionais erodiu as possibilidades de atuação dos Estados sobre o montante e a distribuição geográfica dos investimentos e a mobilidade internacional de mão-de-obra técnica e especializada tornou mais difícil tanto a adoção de um imposto progressivo sobre a renda e as fortunas, quanto a manutenção de despesas públicas elevadas.(5)

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(1) Termo originalmente utilizado por Marshall McLuhan (1911-1980) que em fins dos anos 60 já dizia que “A revolução eletrônica cria um espaço-acústico capaz de globalizar os acontecimentos cotidianos”. McLuhan acreditava que, enquanto a imprensa nos destribalizou, os “midia” eletrônicos estão a retribalizar-nos, vendo positivamente este retorno pluralista.
(2) FIGES, Orlando. A People´s Tragedy: A History Of The Russian Revolution. Viking. New York. 1997. Em todo o livro de 923 páginas o autor, historiador inglês, demonstra como o totalitarismo e a violência do Estado Soviético contra o povo russo estiveram presentes desde o início da Revolução Russa.
(3) PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. A reforma do Estado dos anos 90: Lógica e mecanismos de controle. Documentos Debate: Estado, Administración Pública y Sociedad, Caracas, n. 4. Set. 1997. Pág. 8.
(4) Esta idéia é radicalmente defendida por Noam Chomsky tanto em seus livros, sendo um exemplo O Lucro ou as Pessoas, publicado pela Bertrand Brasil em 2002, como em entrevistas (Roda Viva – TV Cultura de SP – 1997).
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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo.
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