Anos 90: O Discurso Neo-Liberal se Impõe

Durante os anos 90, o cotidiano dos indivíduos em todos os pontos do mundo foi sistematicamente modificado no sentido de fomentar a necessidade de aceitação de toda parafernália criada por aquele novo projeto hegemônico. Sobre um território cada vez maior, o novo projeto, nomeado como neoliberalismo, conquista os espaços diários dos indivíduos, dos partidos, dos sindicatos, dos governos. Conceitos conjunturais se tornam verdades estruturais. Posições políticas se transformam em necessidades econômicas.

Nas democracias atuais, cada vez mais cidadãos livres sentem-se atolados, lambuzados por um tipo de doutrina viscosa que, imperceptivelmente, envolve todo raciocínio rebelde, inibi-o, desorganiza-o, paralisa-o e termina por asfixia-lo. Essa doutrina constitui o “pensamento único”, única autorizada por um invisível e onipresente controle de opinião.(1)

Dentro do mundo do trabalho todas as mudanças vão se dando numa velocidade surpreendente. Estas mudanças se tornam mais visíveis a partir do início dos anos 80, mas já estão desestruturando, por exemplo, o Welfare State europeu, desde a crise do dólar dos anos 70. Um dos livros que já citei nos auxilia justamente nesta seara.

A Globalização que se construía levaria a competitividade como valor supremo; que levaria à flexibilidade (ou compressão, ou supressão) dos direitos trabalhistas; que levaria a algo como a fragmentação das relações de trabalho, ao desemprego estrutural…

E muitos intelectuais, mesmo à esquerda, acreditaram na fatalidade daquela situação. Mas eram mesmo os ideólogos do capitalismo que:

…(com os neoliberais à cabeça) procuram fazer-nos crer que a Humanidade outra coisa não restaria que não fosse ajoelhar perante o “deus-mercado” e a dita “globalização da economia”, e aceitar como perfeitamente “natural” viver o resto de seus dias, na melhor das hipóteses na angústia, na incerteza e na precariedade permanentes e, na pior das hipóteses, na exclusão social, na miséria, na indignidade humana, senão mesmo deixar de viver.(2)

Muitas revistas nacionais e estrangeiras estavam também por trás da fabricação desta “consensualização”. E elogiavam tudo que estivesse de acordo com aquele discurso, criticando o que fosse contrário:

Em 1989 quando Carlos Menem tornou-se presidente, a Argentina era um caso de economia falida. Agora ela é uma das super stars da América Latina. O segredo: convertibilidade e privatização.(3)

Todos estes ideais são reforçados todos os dias dentro das grades de programação televisivas e na imprensa. Assim, também aqueles órgãos, produzem discursos de legitimação das “inovações” gerenciais e tecnológicas para que sejam assumidos pela população em geral e pelos trabalhadores em particular.

Em alguns órgãos de imprensa é mais fácil se identificar este processo legitimador. Com ardorosa intensidade, não muito habitual, em favor do fim do monopólio estatal do petróleo a Revista Veja, por exemplo, ataca a Petrobrás (e por viés, os petroleiros), através de uma longuíssima (para os padrões comuns) matéria de 10 páginas, defendendo também ali, de forma agressiva, a modernidade neoliberal:

A corporação da Petrobrás considera um sacrilégio que se discuta a validade do monopólio. E tem razão para o temor. Se ficasse de uma hora para outra sem o seu muro protetor, a Petrobrás teria de enfrentar concorrentes, e nesse processo se conheceria a sua fotografia reaL que é a de um mamute lento que precisa de um ajuste de proporções quase sísmicas para sobreviver. O monopólio não permite comparação de eficiência. E a Petrobrás se beneficia disso. A quebra do monopólio assusta os 50.000 aguerridos petroleiros da companhia, e é por esse motivo que eles tentam hipnotizar os brasileiros numa campanha publicitária que distorce a realidade. Também tentam passar a versão de que há uma conspiração para destruir a Petrobrás, quando a verdade é outra.(4)

Porém, mesmo com todo instrumental disponível ao tal “consenso fabricado”(5), muitos ainda se punham de pé, acreditando em um possível mundo de justiça social e liberdade individual. E nesta crença se encontra a escolha que fizemos, e fazemos todos os dias. A história dos movimentos sociais sempre nos trás uma esperança. Por isso deve haver sempre lugar e espaço no estudo da história das lutas de resistência em favor da igualdade e liberdade.

E é nesta perspectiva que, como muitos em redor do mundo, ainda

continuamos a creditar que os trabalhadores podem ser donos dos seus próprios destinos. Mas para isso é preciso que eles e as suas organizações, designadamente os Sindicatos, não apenas aprendam e compreendam a História, em particular a História mais recente, mas também e sobretudo se disponham, mais do que a contempla-la e examina-la, a faze-la !(6)

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(1) RAMONET, Ignácio. O Pensamento Único. In MALAGUTI, Manoel (Org.). A Quem Pertence o Amanhã: Ensaios sobre o Neoliberalismo. São Paulo: Edições Loyola, 1997. Pag.23

(2) PEREIRA, Antonio Garcia. Globalização e sindicalismo. In: SANTOS, Maria João; FERREIRA, José Maria Carvalho; e outros. Globalizações: Novos Rumos no Mundo do Trabalho. Florianópolis/Lisboa: UFSC/Socius, 2001. Pág. 148.

(3) Revista US/Latin Trade – The Magazine Of Commerce In The Americas. Em uma das matérias defende a ortodoxia neoliberal. Atendendo as sugestões do FMI a Argentina saiu de uma inflação de 4923% para 12%. Janeiro de 1994.

(4) Revista Veja. A Petrobrás com medo da concorrência. 30 de Março de 1994.

(5) Terminologia utilizada por Noam Chomsky no documentário A Fabricação do Consenso, a respeito da força da mídia de massa e seu papel na sociedade moderna, e as possibilidades de resistência a ela.

(6) PEREIRA, Op. Cit. Pág.149.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo. Pós-Graduando em Jornalismo e Convergência Midiática, com pesquisa sobre o tema Vigilância e Controle Social
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