Análise de Reportagem: O Discurso Violento sobre a Violência

Durante a reportagem do programa Balanço Geral que estou analisando nesses últimos posts podemos notar com clareza a forma violenta com que se trata a violência urbana.

  • É MUITO VAGABUNDO PRÁ POUCOS POLICIAIS…
  • VAMOS VER ALGUNS FLAGRANTES DESSA VAGABUNDAGEM…
  • NO PRIMEIRO CASO ESSE HOMEM AI, ESSE VAGABUNDO DE BLUSA AZUL E BONÉ PRETO ENTRA COM UMA ARMA E LEVA TODO DINHEIRO. ELES BOTAM “HOMEM”, MAS EU CHAMO VAGABUNDO…
  • TADINHO, ELE PODIA TER TIDO UM FUTURO MELHOR… PODIA… ELE PODIA ERA TER MORRIDO ANTES…

Estes pronuciamentos dados diante da câmeras de TV são providos de significados. No próprio texto, neste caso, podemos perceber com uma certa clareza, tendo em vista a radicalidade do discurso, o que o sujeito do próprio discurso deseja difundir. Wagner Montes tem o claro objetivo de persuadir os seus espectadores sobre o mal que representa os assaltos aos ônibus no Estado do Rio de Janeiro.

A reportagem desde seu início induz ao espectador a crença na situação crítica em que se encontra o sistema de transporte naquele estado brasileiro. Mas para isso não dá qualquer tratamento estatístico ao problema. Usa uma entevista como exemplo de que “não é difícil encontrar alguém que já tenha presenciado um assalto dentro de um ônibus“. E logo adiante, com uma legenda na parte inferior da tela, “Medo de Assaltos a Ônibus“, o repórter de rua faz a comparação de assaltos nos meses de janeiro de 2010 e 2011: Aumento de 568 casos para 621. Obviamente ele deixa claro que a pesquisa é do Instituto de Segurança Pública do Estado, para dar um ar de oficialidade (vício jornalístico).

Mas que tipos de assaltos ? Com arma de fogo, sem arma de fogo ? Roubo ou furto ? Os “bandidos”, como se refere o repórter algumas vezes, leva o dinheiro do Cobrador ou também dinheiro e pertences dos passageiros ? Nenhuma informação.

Por que o importante numa reportagem dessas é induzir ao medo ? Ao apoio às ações de segurança do Estado e das empresas de transporte ? Questões importantes para se analisar.

É a partir de todo este discurso sobre a violência urbana que o apresentador surge defendendo a colocação de câmeras de segurança na maioria dos ônibus no Estado do Rio de Janeiro. E é a partir de enunciados que vão dando fundamento um ao outro, e ao pensamento/solução final: A Morte dos “Vagabundos”. A partir de premissas pouco confiáveis o discurso vai tomando o sentido desejado, consciente ou inconscientemente.

A auto-avaliação da reportagem parece ser tão pífia por parte dos editores que a contradição surge no momento em que vemos um repórter explicando que os roubos aumentam mesmo com a instalação das câmeras de vigilância e esses mesmos equipamentos são elogiados um pouco depois pelo apresentador.

Programas como este são referências de como não se deve fazer apuração jornalística. Mas infelizmente, por questões comerciais (e ideológicas) eles se espalham por ai aos quatro ventos. Primeiramente porque são fáceis de se fazer. Uma câmera na mão e uma personalidade extravagante, jornalista ou não.  Imagens recuperadas de câmeras de segurança também são usadas com a maior liberdade possível. Mesmo ao custo da privacidade de indivíduos que, geralmente, nem mesmo imaginam que estão sendo filmados (como vimos nas entrevistas que fizemos sobre os Totens em Salvador).

Esta reportagem é uma evidência de como tudo aquilo que é cultural e histórico, é passivel de ser exposto como natural. Expor situações complexas com análises reducionistas pode criar como resultado a naturalização daquelas situações. A descontextualização faz com que, por exemplo, situações de violência e de contra-violência pareçam naturais e inexoráveis (como gostam de dizer os cientistas sociais).

Clique aqui para ver reportagem do Balanço Geral

A existência de câmeras de vigilância, por exemplo, pula da categoria de opcional à de necessária, e passa, finalmente, para elemento indispensável no combate a violência urbana e para a segurança dos cidadãos.

Paul Veyne (2001), ao discutir o trabalho de Foucault, define o discurso como a parte inconsciente e/ou implícita e naturalizada de cada formação histórica, de cada disciplina, de cada prática. O discurso é a dimensão que singulariza os objetos históricos, ele é o inconsciente, não do sujeito, mas da coisa dita, o inconsciente que atravessa as performances verbais e as práticas discursivas e não-discursivas que caracterizam cada tempo e cada contexto. O jornal está dentro deste jogo, o jornalista também faz parte deste modo de reprodução/reinstalação das lógicas que sustentam as formas de dominação. As escolhas com relação a quem fala na notícia e a escolha dos verbos da ação (ajudar, auxiliar, dar, doar) remetem para este inconsciente de nosso tempo, que naturaliza as desigualdades e limita a reversibilidade dos jogos de poder e verdade.(1)

********

(1) NARDI. Henrique Caetano Nardi. A naturalização do discurso liberal: riscos da privatização do público. In SPINK, Mary Jane (Org.). Práticas Cotidianas e a Naturalização da Desigualdade. São Pualo: Editora Cortez, 2006. Pag. 173.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo. Pós-Graduando em Jornalismo e Convergência Midiática, com pesquisa sobre o tema Vigilância e Controle Social
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Uma resposta para Análise de Reportagem: O Discurso Violento sobre a Violência

  1. Vanessa Costa disse:

    Ótima análise!
    Primeiro, não sei porque programas como este, começam numa determinada praça e precisam se espalhar pelo resto do país. Foi assim com o Balanço Geral, que tem perfil de apresentadores bem parecidos. Reis da demagogia!
    Outra coisa, é quando você fala sobre a utilização de imagens (captadas pelo Estado) por parte das emissoras. Com que direito elas podem ser utilizadas? Porque o Estado permite a utilização? Monitoramento, para fins de segurança, ok! Mas para o pão e circo televisivo, faz favor….

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