A Indústria do Medo

Existem fortes interesses econômicos explorando a indústria do medo. Uma população amedrontada, além do enorme potencial de consumo dessas quinquilharias de monitoramento eletrônico, também é presa fácil de todas as formas de sujeição. Por medo, pessoas abrem mão da privacidade e se entregam à polícia, empresas de segurança e outros mecanismos de controle.

As palavras acima são de Alberto Centurião, que colaborou conosco com um comentário na postagem da Quarta-Feira passada.

Considerei importante sua opinião para iniciar a análise discursiva da reportagem do Jornal Hoje sobre vigilância. A construção da reportagem se inicia justamente com a questão principal percebida por Centurião: A Indústria do Medo, ou a o Comércio da Insegurança. Da primeira parte da reportagem é possível se inferir que as câmeras de vigilância devem servir para inibir crimes, e assim para que a sociedade se sinta mais segura.

A frase abaixo, ao contrário do comentário de Centurião, opina com adjetivações favoráveis ao uso da monitoração eletrônica.

Câmeras que gravam tudo e ajudam a identificar bandidos são armas poderosas contra o crime. São também as estrelas dessa Feira de Segurança que acontece em São Paulo.

A frase acima é da repórter Graziela Azeredo, para iniciar a segunda parte da reportagem, falando sobre o evento que ocorria na época na cidade de São Paulo. Deste ponto da reportagem em diante o que se vê é mais opiniões acerca das benfeitorias sociais que a vigilância traz consigo para maior segurança da sociedade.

São mostrados exemplos de câmeras que unidas às possibilidades da informática tornam-se olhos inteligentes, podendo disparar um alarme em caso de fogo, ou no caso de alguém atravessar indevidamente uma linha de segurança na passarela do metrô, além de monitorar comportamentos estranhos, conforme palavras da própria repórter.

É possível ser contra isso ? Ser contra o uso da moderna Inteligência Artificial como uma nova forma de trazer mais segurança ao mundo ?

Não seria função do jornalismo trazer informações com pelo menos dois focos, ou duas posições que complementassem o nosso conhecimento acerca do assunto que estivesse tratando ?

Nesta reportagem em particular ainda temos mais um dos sintomas do que se transformou o jornalismo nos últimos tempos. Em busca de audiência atribui-se que há a necessidade de uma dose de humor para que o “consumidor” da notícia não se aborreça com ela.

A gracinha nos segundos finais da reportagem é de uma inocência sem tamanho. A repórter não consegue passar pela catraca, pois a câmera inteligente não conseguiu identificá-la.

Se houvesse, por parte, tanto da repórter, quanto da editoria do Jornal Hoje, vontade de informar, procurariam tentar compreender que sociedade é esta, de controle contínuo. Sociedade dos bancos de dados que armazenam desde as nossas senhas de bancos, às informações constantes nos crachás eletrônicos no trabalho ou na escola, até as velocidades de nossos carros, ou nossas faces digitalizadas em bytes e pixéis.

Talvez a função atual do jornalismo não seja mais informar. Quem sabe esse tempo de fluxos controlados continuamente esteja orientando o jornalismo a ter uma função de mera espetacularização da realidade.

Volto na Quarta-Feira para continuar analisando essa perspectiva que anuncia o jornalismo como espetáculo.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo.
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2 respostas para A Indústria do Medo

  1. Não podemos esquecer que o próprio jornalismo se alimenta dessas informações capturadas por câmeras escondidas e, principalmente, por nossos celulares. Estamos sempre dispostos a pegar lances pessoais alheios, para divulgar a privacidade do outro como mercadoria pública. O que é sigiloso torna-se o mais consumido pelo grande público e consequentemente mais rentável para os diversos meios de comunicação. O interessante é que quando somos, inesperadamente, o foco, a peça posta em exposição, retrucamos e partimos para a briga. Nessa industria do medo, hipócritas compram, vendem, consomem e se ofendem.

    Baqueiro, tô na área meu camarada!!! Grande abraço.

  2. Oliveira disse:

    Concordo com o termo que você empregou referente a função que o jornalismo atual, principalmente o televisivo, incorporou plenamente: “espetacularização da realidade”.
    Tudo vira espetáculo, de um deslizamento de terra em Angra à um acidente nuclear no Japão, de um casamento da realeza britânica à morte de Bin Laden, tudo é visto de uma ótica superficial e sem espaço para opiniões divergentes sobre o que está sendo mostrado.
    A informação tem uma direção única e sem maiores considerações críticas. O que vale é a espetacularização da realidade do ponto de vista de quem comanda o grande teatro social.

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