O Jornalismo como Espetáculo

Na postagem anterior falamos de “espetacularização” do jornalismo.

Trouxe hoje para publicar aqui um artigo do livro Contrafogos: Táticas para Enfrentar a Invasão Neoliberal, de Pierre Bourdieu, que aborda essa tendência moderna de se “informar” com uma certa dose de divertimento, ou talvez seria melhor dizer com um bom aparamento de arestas que se consideram como de difícil degustação pelo público.

Para quem não o conhece há uma boa quantidade de bibliografias na Internet. É só colocar no Google. Mas de antemão posso dizer que os jornalistas franceses, em particular, e boa parte daqueles profissionais que o conhecem em redor do mundo também não têm muita simpatia por ele.

Vejam ai, e até Domingo.

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Em um universo dominado pelo temor de ser entediante e pela preocupação (quase pânico) de divertir a qualquer preço, a política está condenada a aparecer como um assunto ingrato, que se exclui tanto quanto possível dos horários de grande audiência, um espetáculo pouco excitante, ou mesmo deprimente, e difícil de tratar, que é preciso tornar interessante a qualquer preço. Daí a tendência que se observa por toda parte, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, a sacrificar cada vez mais o editorialista e o repórter-investigador em favor do animador-comediante, a informação, análise, entrevista aprofundada, discussão de conhecedores ou reportagem em favor do puro divertimento e, em particular, das tagarelices insignificantes dos talk shows entre interlocutores credenciados e intercambiáveis (alguns dos quais, crime imperdoável, citei a título de exemplo).

Para compreender verdadeiramente o que se diz e sobretudo o que não pode ser dito nessas trocas fictícias, seria preciso analisar em detalhe as condições de seleção daqueles que são chamados nos Estados Unidos de panelists (1), estar sempre disponíveis, isto é, sempre dispostos a participar, mas também a jogar o jogo, aceitando falar de tudo (é a própria definição italiana do tuttólogo) e a responder a todas as perguntas, mesmo as mais absurdas ou mais chocantes, que os jornalistas se fazem; estar dispostos a tudo, isto é, a todas as concessões (sobre o assunto, sobre os outros participantes etc.), a todos os compromissos e a todos os comprometimentos para participar e para granjear assim os benefícios diretos e indiretos da notoriedade “na mídia”, prestígio junto aos órgãos de imprensa, convites para dar conferências lucrativas etc.; em particular nos contatos prévios que certos produtores fazem, nos Estados Unidos e cada vez mais na Europa, para escolher os panelistas, empenhar-se para formular tomadas de posição simples, em termos claros e brilhantes, evitando embaraçar-se com saberes complexos (segundo a máxima: “The less you know, the better off you are”). (2)

Mas os jornalistas, que invocam as expectativas do público para justificar essa política da simplificação demagógica (em tudo oposta à intenção democrática de informar, ou de educar divertindo), não fazem mais que projetar sobre ele suas próprias inclinações, sua própria visão; especialmente quando o medo de entediar, e portanto de fazer baixar a audiência, os leva a dar prioridade ao combate em lugar do debate, à polêmica em lugar da dialética, e a empregar todos os meios para privilegiar o enfrentamento entre as pessoas (os políticos, sobretudo) em detrimento do confronto entre seus argumentos, isto é, do que constitui o próprio móvel do debate, déficit orçamentário, baixa dos impostos ou dívida externa. Pelo fato de que o essencial de sua competência consiste em um conhecimento do mundo político baseado na intimidade dos contatos e das confidências (ou mesmo dos rumores e dos mexericos) mais que na objetividade de uma observação ou de uma investigação, eles tendem, com efeito, a levar tudo para um terreno em que são peritos, interessando-se mais pelo jogo e pelos jogadores do que por aquilo que está em jogo, mais pelas questões de pura tática política do que pela substância dos debates, mais pelo efeito político dos discursos na lógica do campo político (a das coligações, das alianças ou dos conflitos entre as pessoas) do que por seu conteúdo (quando não chegam a inventar e a impor à discussão puros artefatos.

(1) Membros de uma mesa redonda transmitida por televisão ou rádio.

(2) “Quanto menos souber, melhor para você”.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo.
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Uma resposta para O Jornalismo como Espetáculo

  1. Shirley Andrade disse:

    Opinião perfeita de Bourdieu. Na Globo há fontes viciadas a rôdo. Prá falar de energia atômica aparece sempre um físico carioca. Prá falar de economia é o mesmo sarará. E prá educação é um tal de Pompeu, que sempre tá lá nos jornais da Globo. Nos jornais da Globo News é mais fácil achar gente diferente. Mas prá dar notícia ao populacho, só gente confiável mesmo.

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