Hegemonia Ideológica sobre a Mídia

Em 2004 estava concluindo a Especialização em História Social e Educação, na Universidade Católica de Salvador (Ucsal), e terminava ali a elaboração de uma monografia sobre a Greve dos Petroleiros em 1995. Naquele trabalho apresentei o que considerava a “construção de uma identidade combativa” na categoria dos trabalhadores petroleiros no decorrer da sua existência, desde os anos 40, até os anos 1990. Dentro do trabalho escrevi um capítulo analisando os discursos presentes no período da greve: Discurso Sindical, Discurso de Trabalhadores da Base, e Discurso da Imprensa.

Publico aqui hoje um trecho do que escrevi sobre o Discurso da Imprensa. Isso serve como complemento às análises que venho fazendo sobre o Discurso da Mídia. Análises essas com as quais espero deixar claro sobre a existência de uma hegemonia da ideologia (pontos de vista sobre o mundo) de uma classe (grupo econômico) em detrimento de outras.

Espero que gostem. E até a próxima Quarta-Feira.

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Não é objetivo deste trabalho comprovar nenhuma “teoria da conspiração”, onde as elites dominantes criam e manipulam a mídia ao seu bel prazer contra as classes trabalhadoras. Mas um trabalho que objetiva apresentar um discurso da mídia serve, no mínimo, para que possamos compreender certos aspectos que envolvem a natureza dos meios de comunicação de massa, particularmente a imprensa, como, por exemplo, sua influência sobre a população (incluindo aqui os próprios trabalhadores em greve), como formadora de opinião.

A existência daquelas mídias como mecanismo de difusão ideológica é esclarecida por Pierre Ansart:

De fato, uma ideologia pouco sistemática será incessantemente difundida por esses grandes mediadores dos significantes políticos, ideologia conforme a estrutura da propriedade, incitando à conformidade com a ordem estabelecida e a ver a política como um espetáculo pouco sério.(1)

Aquela imprensa se encontra lado a lado daqueles

estratos dominantes, cujos interesses encontram-se servidos por modelos ideológicos mais bem armados que os outros, [e que] geralmente dão-se ao luxo, na medida em que sua superioridade material lhes parece mais segura, de encorajar as inovações no campo da estética e da moda. Contudo, no fundo delas próprias, mostram-se atentas a se defender contra todas as mudanças menos superficiais que poderiam vir a colocar em questão os poderes e vantagens que detém (2).

É possível evidenciar as posições acima descritas, por parte de quem domina a sociedade que vivemos, a partir da compreensão do que fez a imprensa durante a greve dos petroleiros de 1995. Ali podemos compreender como as contradições e embates estão, e muito, vivos ainda na nossa sociedade. E o quanto a mídia deixa de ser apenas um meio poderoso de criar e circular informação, e tende a tornar-se “um poder transformador de reestruturação dos espaços de interação” (3).

O discurso da mídia no ano de 1995 se afinava com os propósitos do Governo Federal. O governo de FHC, desde seu início, estava claramente ligado às idéias ortodoxas que vigiam a respeito da governabilidade naquela conjuntura. Como já exposto anteriormente a tendência ali era de “modernização” do Estado. O próprio FHC várias vezes caracterizou seu governo como aquele que daria fim a “Era Vargas”, uma formulação clara de quem desejava um Estado minimizado, como pretendiam as “leis” neoliberais.

Dessa forma, além de motivados por todas as contradições estruturais da sociedade, os órgãos de comunicação ainda seriam pressionados pelo governo a se posicionarem de uma forma, no mínimo, neutra com relação a qualquer entrave às suas ações. E a Greve dos Petroleiros seria identificada como um daqueles obstáculos que, de alguma maneira, poderiam dificultar a implantação dos desejos daquele governo.

Na própria história das greves dos petroleiros os governantes já haviam dado mostras do controle do Estado sobre os órgãos de imprensa. Em 1983, durante a greve do petroleiros da RLAM e Paulínia, o Dentel – órgão do Ministério das Comunicações responsável pela fiscalização das emissoras de rádio e televisão – lacrou os transmissores da Rádio Bandeirantes de São Paulo por ter transmitido informações em um de seus jornais diários sobre a greve. Oficialmente, entretanto, os transmissores foram lacrados porque, segundo declarações do porta-voz presidencial à época, “a emissora estava em desacordo com as normas técnicas de operação e foi descoberta em erro” (4).

Além da repressão pura e simples, este controle, por parte do Estado sobre os órgãos de mídia, se dá também a partir da sua influência nas contas publicitárias daqueles órgãos.

Como em 1995 já não vivíamos em um regime de exceção, como em 1983, as formas com que a mídia demonstrará seu desafeto pela mobilização, ou o controle do Estado sobre ela, não se dará com a supressão das informações, mas com a construção de um discurso que iniba e enfraqueça aquela mobilização.

(1) ANSART, Pierre. Ideologias, Conflitos e Poder. Zahar. Rio de Janeiro. 1978. Pág. 86/87.

(2) DUBY, Georges. História Social e Ideologias das Sociedades. IN: LE GOFF, Jacques (org.). História : Novos Problemas. Francisco Alves. Rio de Janeiro. 1979. Pág. 133.

(3) MEDRADO, Benedito. Textos em Cena: A Mídia como Prática Discursiva. IN: SPINK. Op. Cit. Pág 247.

(4) MATTOS, Sérgio. O controle dos meios de comunicação. EDUFBA. Salvador. 1996. Pag. 45.

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Sobre cbaqueiro

Graduado em História e Jornalismo. Pós-Graduando em Jornalismo e Convergência Midiática, com pesquisa sobre o tema Vigilância e Controle Social
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